set 23 2011

Companhia

Tic-tac-tic-tac… De maneira intermitente faz o relógio barulhento na parede da sala… Tic-tac-tic-tac… Conta os segundos, irritante, no silêncio infernal.

Nada há para ser feito nesta noite quente, num inverno meio louco. Faz-se frio o dia inteiro, mas a noite escapa a compreensão. É calor, mas não é pouco. E se ainda frio, congela o ar de maneira sombria.

O barulho do relógio disputa de forma insistente contra o cair da chuva, enquanto o arrasto grosseiro da água sobre a rua faz-se notar.

 

Badaladas.

 

O tempo, arrastado, passa trazendo consigo seu amargo tédio, e deixa sabor de dia ruim. Nada poderia confortar o desprazer da tarde que se passou, menos ainda da visita que chegaria a tornar-se hóspede.

03:00 da manhã…

 

Campainha.

 

É fato, soubesse eu antecipadamente quem seria, jamais abriria a porta, rasgaria da maneira mais cretina um “CAI FORA!”  e dane-se a educação…

O olho-mágico mostrava do outro lado algo que eu jamais acreditaria. E duvidei de tal forma que, quase num transe hipnótico, abri a porta. Era preciso testar a veracidade.

 

Rangido.

 

A efígie que acenava aos meus pensamentos era mais que um vislumbre de tesouro antigo, muito mais do que poderia conter minha empolgação.

 

Passos.

 

Vagarosamente, uma figura estonteante misturava-se aos meus batimentos acelerados. Ainda sem face, mas em curvas acentuadas e belas, destacava-se sua roupa intimidante e seu pisar vigoroso.

Sua respiração suave transparecia confiança, nem a corrente congelante de ar que cruzava por sua silhueta era capaz de fazer-lhe tremer.

 

Aspiração.

 

De olhos brilhantes e duros, sorriso sarcástico e face limpa, caminha… Caminha e segue de encontro aos meus olhos curiosos causando temores e arrepios.

 

Sussurros.

 

A pele em brasa encostada em minha face mantém uma paralisia quase sobrenatural. Numa explosão de sentidos embriagados, faz-se sóbrio o lamentar.

Com entonação suave, e venenosa sensualidade, dispõe-se a apresentação cordial.

 

Prazer, Vaidade.